Hiroshi Bogéa  –  A vitória de Lula nas urnas não deve ser interpretada apenas como a conquista de mais um mandato presidencial. O resultado também traz recados políticos que o presidente não pode ignorar. Entre eles, um dos mais importantes é o desgaste de quadros históricos do PT e a necessidade de preparar uma nova geração para assumir responsabilidades no partido e no governo.

O Governo Lula-4 deveria nascer com essa compreensão:  abrir espaço para novas lideranças e romper com a lógica de que a estrutura do Estado precisa servir de abrigo para dirigentes que perderam espaço nas urnas.

Durante a campanha, jovens políticos, militantes e quadros técnicos tiveram atuação relevante na comunicação com o eleitorado mais jovem. Trabalharam nas redes, participaram da mobilização e ajudaram a construir pontes com uma parcela da sociedade que exige linguagem direta, renovação de ideias e respostas para problemas concretos. Esse trabalho precisa ser reconhecido, mas, sobretudo, aproveitado na formação de uma nova equipe de governo.

Não se trata de entregar ministérios por faixa etária, nem de substituir experiência por juventude como se a idade, isoladamente, fosse um certificado de competência. A renovação deve combinar capacidade técnica, compromisso democrático, sensibilidade social e disposição para compreender um Brasil que mudou. O fundamental é abrir oportunidades para quem demonstrou capacidade de trabalho, iniciativa e conexão com as novas demandas da sociedade.

O PT tem quadros experientes que conhecem a máquina pública, ajudaram a construir a história do partido e acompanharam a trajetória de Lula desde os primeiros tempos. Essa experiência continua tendo valor. Muitos merecem reconhecimento e podem contribuir com o governo. Mas reconhecer uma trajetória não significa garantir, automaticamente, um cargo na Esplanada dos Ministérios.

É justamente aí que Lula terá de fazer uma escolha política importante: distinguir a valorização de uma história da obrigação de acomodar seus protagonistas.

Perder uma eleição ou não conseguir renovar o mandato parlamentar faz parte da democracia. O resultado das urnas deve ser respeitado também dentro dos partidos. Não existe justificativa automática para transformar ministérios, secretarias e postos na administração pública em mecanismos de compensação para derrotas eleitorais. O governo não pode funcionar como agência de recolocação de dirigentes partidários.

Esse modelo, além de alimentar a percepção de empreguismo, dificulta a circulação de novas lideranças e perpetua estruturas que, com o tempo, passam a confundir a sobrevivência de seus integrantes com os interesses do projeto político que representam.

Lula tem diante de si uma circunstância singular: o Governo 4 será também a oportunidade de definir como pretende encerrar sua trajetória presidencial. Se deseja deixar um legado que ultrapasse os resultados econômicos e sociais de sua administração, precisará contribuir para que o campo político que lidera tenha vida própria, lideranças preparadas e capacidade de renovação para além de sua presença pessoal.

Isso exige mais do que mudar nomes na fotografia oficial. Exige um freio de arrumação nos critérios de ocupação dos espaços de poder, metas claras para os ministérios, avaliação de desempenho e disposição para enfrentar resistências dentro do próprio partido.

A vitória eleitoral não deve funcionar como salvo-conduto para repetir fórmulas antigas. Ela também precisa servir de instrumento de reflexão. O eleitor pode reconhecer realizações de um governo e, ao mesmo tempo, demonstrar cansaço com determinadas figuras, práticas políticas e formas de organização partidária.

O desafio, portanto, não é promover uma ruptura indiscriminada com o passado, mas impedir que o passado se transforme em obstáculo para o futuro.

Lula conhece como poucos a história do PT, suas conquistas, seus erros e suas contradições. Cabe a ele decidir se o último capítulo de sua trajetória presidencial será marcado apenas pela continuidade de um grupo já conhecido ou pela construção de condições para que novas lideranças assumam responsabilidades reais.

O Governo 4 não pode ser apenas mais um governo de Lula. Precisa ser também uma oportunidade para o PT começar a preparar o partido que existirá depois de Lula. E essa transição não se faz distribuindo cargos para preservar velhas posições, mas reconhecendo talentos, abrindo espaço para novas ideias e estabelecendo uma regra elementar: no governo, a história merece respeito, mas o cargo precisa ser conquistado pela capacidade de servir ao país.  (Foto: Reprodução / Reuters)