Hiroshi Bogéa – Tem uma coisa curiosa no Brasil.
Quando o pobre perde dinheiro apostando, chamam de entretenimento.
Quando o clube ganha dinheiro com a aposta, chamam de patrocínio.
Pronto.
Está resolvida a moral da história.
Só esqueceram de perguntar quem paga a conta.
Agora que se fala em acabar com as bets, os clubes descobriram que podem ficar sem dinheiro.
E estão fazendo barulho.
Muito barulho.
O Flamengo está entre os principais críticos da ideia.
Também pudera.
O clube recebe cerca de R$ 270 milhões por ano pelo patrocínio da Betano.
É dinheiro suficiente para deixar qualquer cartola com saudade antecipada.
Mas vamos combinar uma coisa?
O Flamengo não é um clube qualquer.
É uma potência econômica.
Já ultrapassou R$ 1 bilhão de faturamento anual antes da explosão das bets.
Hoje, seu faturamento anual está acima de R$ 2 bilhões.
Tem torcida.
Tem audiência.
Tem televisão.
Tem camisa.
Tem estádio.
Tem sócio-torcedor.
Tem publicidade.
Tem venda de jogadores.

Tem uma das marcas esportivas mais poderosas da América Latina.
Ou seja: se alguém no futebol brasileiro tem condições de procurar outro patrocinador, é justamente o Flamengo.
A bet não inventou o Flamengo.
O Flamengo é que ajudou a transformar a bet em uma máquina de exposição.
Convém não confundir as coisas.
Os clubes argumentam que o fim das apostas regulamentadas provocaria perda de receitas e afetaria investimentos no futebol, no futebol feminino e em outras modalidades.
É um argumento econômico.
E deve ser considerado.
Mas há outro argumento econômico.
O do sujeito que aposta.
Especialmente o sujeito pobre.
Esse não aparece no balanço patrimonial do clube.
Não aparece na prestação de contas.
Não aparece na camisa.
Não aparece na fotografia do jogador segurando o cheque.
Mas existe.
É o trabalhador que coloca R$ 20.
Perde.
Coloca mais R$ 20.
Perde de novo.
E tenta recuperar.

Até transformar uma brincadeira anunciada como entretenimento em dívida.
É aí que a conversa muda.
Porque futebol não pode ser financiado pela esperança de enriquecimento fácil de quem mal consegue fechar o mês.
O presidente Lula tem insistido nesse ponto: os clubes não podem depender do dinheiro das apostas e das dívidas do povo pobre.
É uma frase simples.
E talvez por isso incomode tanto.
Porque não precisa de PowerPoint.
Nem de economista de televisão.
Nem de especialista em marketing esportivo.
Basta olhar para a fila do supermercado.
Enquanto isso, o futebol oferece ao apostador uma fábrica permanente de estímulos.
Ídolo anuncia.
Clube anuncia.
Narrador anuncia.
Programa esportivo anuncia.
Placa do estádio anuncia.
A camisa anuncia.
A mensagem é quase sempre a mesma: “Aposte”
E depois o clube aparece dizendo que precisa desse dinheiro para sobreviver.
É uma inversão curiosa.
Primeiro cria-se a dependência.
Depois usa-se a dependência como argumento para manter a fonte.
O Brasil já fez isso outras vezes.
Só que agora há bilhões envolvidos.
E quando há bilhões, sempre aparece alguém para explicar por que não se pode mexer em nada.
Há, evidentemente, um debate legítimo sobre o risco de uma proibição empurrar apostadores para plataformas clandestinas.
Também há discussão sobre regulação, fiscalização e proteção dos usuários.
Tudo isso precisa ser levado em conta.
Mas nenhuma dessas questões transforma as bets em atividade indispensável ao futebol.
O futebol brasileiro existia antes delas.
E continuará existindo sem elas.
Talvez tenha de buscar outros patrocinadores.
Talvez precise rever seus modelos comerciais.
Talvez tenha de criar novas receitas.
Que tragédia.

Empresas gigantes tendo de procurar dinheiro em outro lugar.
O Flamengo, particularmente, deveria encarar esse desafio como oportunidade.
Se uma empresa deixa um buraco de R$ 270 milhões no orçamento de um clube que movimenta mais de R$ 2 bilhões, existe um problema.
Mas não necessariamente o problema que estão dizendo.
Pode ser apenas a hora de descobrir quanto vale, de verdade, a marca Flamengo.
Porque uma coisa é certa: o Flamengo não precisa da bet para ser Flamengo.
A bet é que precisa do Flamengo para vender aposta.
E talvez essa seja a conta que os cartolas estejam evitando fazer.
No fim das contas, ninguém está pedindo que o futebol brasileiro fique pobre. Ninguém está dizendo que clubes devam abrir mão de receitas importantes sem procurar alternativas. A discussão é outra: que tipo de dinheiro queremos colocar no coração do futebol?
Se a resposta for qualquer dinheiro, desde que entre no caixa, então já não estamos discutindo esporte. Estamos discutindo apenas contabilidade.
O torcedor pode até aceitar que o clube precise de patrocinador. O que fica difícil de explicar é por que o dinheiro perdido pelo trabalhador deve ser transformado em receita milionária de uma instituição esportiva.
O pobre perde a aposta. O clube comemora o patrocínio. E ainda querem convencer todo mundo de que são coisas completamente diferentes!
Não são. E talvez esteja aí a maior ironia dessa história: o futebol brasileiro passou décadas pedindo que o torcedor acreditasse nele. Agora, algumas de suas maiores instituições parecem pedir que o torcedor aposte nele.
Entre acreditar e apostar existe uma diferença enorme. A primeira coisa constrói paixão. A segunda pode destruir o bolso. E nenhum escudo, por mais glorioso que seja, deveria precisar da miséria de ninguém para continuar brilhando. (Fotos: Reprodução)


