Hiroshi Bogéa –  A vitória de Lula sobre a extrema-direita no Brasil pode ter sido muito mais do que uma virada política nacional. Seus efeitos começam a reverberar pelo mundo, alimentando uma reação democrática que, embora lenta, dá sinais de estar impondo limites ao avanço de lideranças autoritárias.

Os acontecimentos recentes em Israel e nos Estados Unidos reforçam essa percepção. A perspectiva de saída de Benjamin Netanyahu do governo israelense e a derrota acachapante de Donald Trump nas eleições de meio de mandato representam mais do que reveses eleitorais.

São sinais de que o domínio da extrema-direita, celebrado por seus protagonistas como uma marcha irreversível, pode ser bem mais efêmero do que se imaginava.

Há algo de profundamente revelador nesse movimento.

A democracia possui uma capacidade de autocorreção que seus adversários frequentemente desprezam.

Não se trata de um mecanismo automático, muito menos de uma reação imediata. A democracia pode levar anos para recompor suas forças, suportar ataques sistemáticos às instituições e conviver com governos que tentam transformar o Estado em instrumento de seus projetos de poder.

Mas ela resiste.

E, quando encontra condições institucionais para se manifestar, a resistência democrática aparece onde sempre esteve sua principal força: no voto dos cidadãos comuns.

O Brasil oferece um testemunho eloquente dessa capacidade de reação.

A reeleição de Lula, derrotando um projeto político sustentado pelo extremismo, pela intolerância e pelo desprezo às regras democráticas, demonstrou que a sociedade brasileira não estava disposta a entregar definitivamente seu destino a uma corrente autoritária.

A vitória brasileira teve um significado que ultrapassa nossas fronteiras.

Em um mundo no qual a extrema-direita parecia avançar sem obstáculos, o resultado das urnas mostrou que a polarização não elimina a possibilidade de reconstrução democrática. E que os eleitores, mesmo submetidos a campanhas de desinformação, ao medo e à manipulação política, preservam a capacidade de decidir os rumos de seus países.

É justamente aí que reside uma das mais importantes lições desse período: eleições importam. E a proteção das eleições por instituições independentes importa ainda mais.

Não há democracia efetiva sem eleições livres. Tampouco há eleições verdadeiramente livres quando tribunais são intimidados, sistemas eleitorais são desacreditados artificialmente ou o resultado das urnas passa a depender da conveniência dos governantes.

A atuação da Justiça na defesa da ordem constitucional não é um obstáculo à vontade popular. É uma condição para que essa vontade possa se expressar sem coerção, fraude ou ameaça.

Os líderes autoritários deveriam prestar atenção a esses sinais.

Donald Trump, Netanyahu e tantos outros representantes dessa corrente política construíram seus projetos sobre a convicção de que o poder, uma vez conquistado, poderia ser mantido indefinidamente. Apostaram na radicalização, no ressentimento, na desqualificação dos adversários e na tentativa de enfraquecer as instituições que limitam o exercício do poder.

Mas há um limite para essa estratégia: a vida real.

O eleitor pode ser mobilizado pelo medo durante algum tempo. Pode acreditar em promessas de restauração nacional, em discursos de grandeza ou na fantasia de que um líder está acima das regras. Porém, quando a realidade econômica, social e política se impõe, o encantamento pode se desfazer.

A democracia, nesse sentido, é também um choque de realidade para os que imaginam governar eternamente.

Isso não significa que a extrema-direita esteja derrotada. Seria ingenuidade acreditar que uma sequência de derrotas eleitorais eliminaria as raízes do autoritarismo. Essas forças continuarão presentes, disputando espaços, reorganizando discursos e tentando recuperar o terreno perdido.

O que começa a se desfazer, entretanto, é a ideia de inevitabilidade de seu avanço.

Na América Latina, a Argentina de Javier Milei poderá ser o próximo palco dessa reação.

O presidente argentino construiu seu governo sobre uma agenda radical de desmonte do Estado, confrontação política e sacrifícios sociais apresentados como inevitáveis. Resta saber até quando a sociedade argentina estará disposta a suportar os custos desse projeto.

Milei poderá descobrir, como outros líderes antes dele, que a popularidade não é um cheque em branco e que o voto que leva alguém ao poder também pode retirá-lo de lá.

A história democrática não se desenvolve em linha reta. Avança, recua, enfrenta crises e, muitas vezes, parece sucumbir diante de forças que se imaginam invencíveis. Mas há uma diferença essencial entre a democracia e o autoritarismo: a primeira admite a possibilidade de mudança; o segundo tenta eliminá-la.

É por isso que as eleições continuam sendo um instrumento tão poderoso.

A vitória de Lula, os sinais de mudança em Israel e a derrota de Trump nos Estados Unidos compõem um quadro que merece ser observado com atenção. Não estamos diante do fim da extrema-direita, mas de uma demonstração de que seu poder não é absoluto.

Os povos não são espectadores passivos da história. E a democracia, quando preservada por instituições firmes e sustentada pela participação popular, tem capacidade de reagir.

A extrema-direita pode conquistar governos. Pode até imaginar que conquistou o futuro. Mas as urnas continuam lembrando aos seus líderes que nenhum poder é eterno — e que a democracia não pertence a quem governa, mas a quem vota.