Hiroshi Bogéa – Em uma entrevista política, sobretudo em um período de forte polarização como o que o Brasil atravessa, a atuação de um jornalista costuma ser julgada menos pelas perguntas que faz do que pelas reações que elas provocam. Quando o entrevistado é um candidato à Presidência da República, essa tendência se acentua: os apoiadores esperam perguntas que favoreçam suas convicções, enquanto os adversários procuram identificar qualquer sinal de complacência ou hostilidade.
É nesse ambiente que deve ser analisado o desempenho de Renata Lo Prete nas entrevistas com Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro.
A tese central é que o profissionalismo de uma jornalista não deve ser medido pela satisfação dos entrevistados ou de seus apoiadores, mas pela qualidade das perguntas, pela consistência das cobranças, pela capacidade de ouvir as respostas e pela disposição de confrontar os candidatos com fatos e contradições.
A existência de críticas vindas de campos políticos opostos, por si só, não comprova a imparcialidade da entrevistadora. Entretanto, constitui um ponto de partida interessante para examinar se ela conseguiu preservar sua independência diante de interesses eleitorais conflitantes.
A primeira qualidade: não transformar a entrevista em um palanque
Uma entrevista eleitoral não deve ser confundida com um debate entre candidatos nem com uma conversa amistosa destinada a divulgar realizações de governo ou promessas de campanha. Sua finalidade é submeter os postulantes ao cargo mais importante da República a questionamentos que ajudem o eleitor a avaliar suas ideias, suas responsabilidades e sua capacidade de governar.
Na sabatina de Lula, realizada em 15 de outubro, e na de Flávio Bolsonaro, no dia 16, Renata Lo Prete teve a oportunidade de exercer exatamente esse papel. As entrevistas seguiram um formato semelhante, com duração de aproximadamente 43 minutos cada.
A jornalista precisava evitar dois riscos: permitir que os candidatos dominassem a conversa com discursos previamente preparados ou transformar o confronto jornalístico em uma disputa pessoal.
O mérito de uma boa entrevistadora está justamente em manter o controle da pauta, interromper desvios quando necessário e insistir nos pontos que permanecem sem esclarecimento. O candidato pode ter o direito de não concordar com a pergunta, mas não deve ter o poder de determinar sozinho quais assuntos serão discutidos.
Entrevista com Lula: cobrar quem está no exercício do poder
Por ser presidente da República e candidato à reeleição, Lula precisa ser examinado também à luz das decisões tomadas durante seu governo. Não basta perguntar o que pretende fazer: é necessário confrontá-lo com os resultados obtidos, as dificuldades enfrentadas e as promessas que não foram cumpridas.
Esse é um dos fundamentos do jornalismo político responsável: quem exerce o poder tem o dever de prestar contas à sociedade.
Na entrevista conduzida por Renata, Lula falou sobre o desempenho de sua campanha, reconheceu dificuldades na comunicação das realizações governamentais e apresentou argumentos em defesa da continuidade de seu projeto político. A condução da jornalista foi elogiada pelo analista José Roberto de Toledo, que considerou a entrevista melhor conduzida do que a sabatina anterior do primeiro turno.
Isso não significa que Lula tenha respondido satisfatoriamente a todas as perguntas ou que a entrevista tenha sido perfeita. Uma análise rigorosa deve considerar, entre outros aspectos, se as respostas foram suficientemente específicas, se houve espaço para aprofundar temas relevantes e se as cobranças foram proporcionais à importância dos assuntos.
Ainda assim, questionar o presidente não significa necessariamente hostilizá-lo. Da mesma forma, permitir que ele exponha suas realizações não significa favorecê-lo.
O critério deve ser a qualidade da cobrança, e não o desconforto que ela possa provocar entre os apoiadores do governo.
Entrevista com Flávio Bolsonaro: o desafio de enfrentar respostas evasivas
No caso de Flávio Bolsonaro, a situação apresentava outra particularidade. Além de candidato à Presidência, ele precisava demonstrar que suas propostas eram consistentes, que conhecia os problemas nacionais e que estava preparado para assumir as responsabilidades inerentes ao cargo.
A entrevista abordou assuntos como segurança pública, política de armas, governança, corrupção e transparência financeira.
Um dos desafios mais importantes para qualquer jornalista é lidar com o candidato que, diante de uma pergunta incômoda, procura deslocar a conversa para um tema mais favorável à própria campanha.
Flávio deixou perguntas sem resposta, recorreu a frases de efeito e apresentou acusações contra o PT e Lula. A cobertura também registrou tentativas da entrevistadora de contestar informações que não estavam comprovadas ou que não correspondiam ao que se conhecia dos fatos.
Se o candidato muda de assunto, cabe à jornalista trazê-lo de volta à questão original. Se faz uma acusação, cabe a ela exigir fundamento. Se apresenta uma promessa econômica, cabe perguntar como será financiada e quais seriam suas consequências.
Esse procedimento não representa perseguição política. Representa o exercício da função jornalística.
E isto, Renata entregou.
A exigência, evidentemente, deve valer para todos. Se Lula também desvia de uma pergunta ou apresenta uma afirmação imprecisa, a entrevistadora precisa adotar o mesmo rigor.
Por que os dois lados criticam a jornalista?
A polarização política brasileira criou um ambiente em que parte dos espectadores avalia as entrevistas de acordo com o resultado que gostaria de ver: o próprio candidato fortalecido e o adversário constrangido.
Quando uma jornalista questiona um candidato apoiado pelo espectador, pode ser acusada de perseguição. Quando não insiste em determinado assunto que interessa a esse espectador, pode ser acusada de complacência.
Isso explica por que a mesma pergunta pode ser interpretada de maneiras opostas. Para uns, ela representa uma cobrança legítima; para outros, uma tentativa de prejudicar o entrevistado.
As reações às entrevistas de Renata ilustram esse fenômeno. Houve elogios à sua condução na conversa com Lula, enquanto a entrevista com Flávio também provocou críticas à jornalista, inclusive entre pessoas ligadas ao campo político do candidato.
Entretanto, é necessário fazer uma distinção importante: ser criticada pelos dois lados não é prova automática de imparcialidade. Uma jornalista pode receber críticas contraditórias e, ainda assim, cometer erros ou adotar critérios inconsistentes.
A imparcialidade precisa ser demonstrada pelo conteúdo da entrevista: pelas perguntas, pela distribuição do tempo, pela contextualização dos fatos e pela maneira como cada candidato é confrontado com suas próprias declarações.
Avaliação do desempenho da jornalista
Considerando as informações disponíveis sobre as duas sabatinas, há bons fundamentos para avaliar positivamente o desempenho profissional de Renata Lo Prete. A condução das entrevistas, o controle da pauta e as tentativas de exigir esclarecimentos dos candidatos são aspectos compatíveis com o exercício responsável do jornalismo político.
A ressalva é que uma conclusão definitiva sobre a imparcialidade comparativa exige examinar as duas entrevistas integralmente, e não apenas os trechos que ganharam repercussão nas redes sociais ou foram destacados por comentaristas.
O aspecto mais importante, contudo, é outro: em uma democracia, o jornalista não tem a obrigação de agradar ao presidente, ao candidato de oposição ou aos respectivos eleitores. Tem a obrigação de fazer perguntas relevantes, cobrar respostas e oferecer ao público elementos para formar seu próprio julgamento.
Quando um candidato se sente incomodado por uma pergunta pertinente, isso não significa que o jornalista tenha agido mal. Quando um apoiador considera injusta uma cobrança dirigida ao seu político preferido, também não significa que tenha ocorrido perseguição.
A medida do bom jornalismo não é o aplauso de uma torcida. É a capacidade de colocar o interesse público acima dos interesses eleitorais.
E talvez seja justamente essa a principal virtude que se deve esperar de uma jornalista em entrevistas dessa importância: não trabalhar para Lula, não trabalhar para Flávio Bolsonaro e tampouco trabalhar para satisfazer as expectativas de quem os apoia, mas trabalhar para o cidadão que precisa conhecer os candidatos para decidir o futuro do país. (Foto: Reprodução)


