Ao usar a imagem de seus jogadores para atacar uma decisão de proteção social, a diretoria rubro-negra ultrapassa os limites do interesse esportivo e transforma o clube em instrumento de defesa de um negócio que devora a renda de famílias brasileiras.
Hiroshi Bogéa – Quem me conhece sabe que sou um torcedor do Flamengo apaixonado, daqueles que adoce (adoecer mesmo, de ficar sem disposição pra nada!) quando o time perde.
Minha maior paixão sempre foi o Flamengo, desde meus 8 anos de idade.
De tanto amor ao time confesso estar vivendo momentos de intensa decepção e indignado com a atual diretoria do clube, tendo à frente o fanfarrão do presidente Luiz Eduardo Baptista – o Bap.
Dito isto, nunca é aconselhável esquecer que há momentos em que o dinheiro fala mais alto que a consciência.
E há momentos em que uma instituição centenária, construída pela paixão popular, parece esquecer de onde veio, a quem pertence simbolicamente e qual é a responsabilidade que carrega. A postura da diretoria do Flamengo diante das medidas contra as apostas esportivas se encaixa nessa segunda categoria.
O Flamengo nasceu e cresceu também como expressão da paixão das massas. É o clube de milhões de brasileiros, entre eles trabalhadores que contam moedas no fim do mês, pais e mães que se desdobram para alimentar os filhos e famílias que lutam diariamente para manter a casa de pé. É justamente essa gente que merece respeito — não ser usada como escudo de uma campanha em defesa das bets.
Ao colocar jogadores uniformizados diante das câmeras, exibindo mensagens contrárias à decisão governamental, a direção rubro-negra utiliza o peso emocional do clube e a popularidade de seus atletas para constranger quem tenta enfrentar um problema social grave.
Os jogadores, transformados em peças de uma estratégia institucional, emprestam seus rostos e sua credibilidade a uma causa que está longe de ser consensual.
A pergunta é inevitável: que tipo de compromisso social existe em uma campanha que coloca os interesses comerciais acima da proteção das famílias?
A decisão de combater a expansão descontrolada das apostas merece ser defendida, não ridicularizada.
O avanço das bets, associado à publicidade agressiva, à promessa ilusória de dinheiro fácil e à presença maciça de influenciadores e celebridades, tem alimentado um ambiente de risco para pessoas vulneráveis. O dinheiro que deveria pagar o supermercado, o aluguel, o gás e a conta de luz acaba, muitas vezes, convertido em apostas na esperança de recuperar o que já foi perdido.
E quando a esperança vira compulsão, a casa inteira paga a conta.
Não se trata de afirmar que todo apostador desenvolverá dependência, nem de ignorar a necessidade de uma regulação responsável. Trata-se de reconhecer que os prejuízos financeiros e familiares associados ao jogo problemático são reais e que o poder público tem o dever de agir.
Proteger a população não é perseguir o entretenimento: é impedir que a vulnerabilidade econômica seja transformada em oportunidade de negócio.
A diretoria do Flamengo deveria compreender essa diferença elementar. Em vez disso, escolhe confrontar uma iniciativa de proteção social e expõe seus atletas como garotos-propaganda de uma disputa em que os interesses econômicos parecem ter precedência sobre o bem-estar coletivo.
E o presidente Bap, ao conduzir o clube por esse caminho, assume uma postura feroz na defesa dos interesses comerciais, mas nociva quando o assunto é o bem-estar comum.

Um dirigente pode defender receitas, patrocínios e a saúde financeira de sua instituição. O que não deveria fazer é confundir a defesa do caixa do clube com uma autorização para ignorar as consequências sociais do negócio que pretende proteger.
O Flamengo não é uma empresa qualquer. Sua camisa carrega uma história popular, uma identidade coletiva e uma força simbólica que ultrapassa as quatro linhas. Usar esse patrimônio afetivo para pressionar contra medidas de proteção aos mais vulneráveis é uma escolha política e moral — e, como tal, precisa ser cobrada publicamente.
No futebol internacional de elite, a consciência do papel social de um atleta já impõe limites claros.
Um jogador do porte e da estatura moral de Kylian Mbappé — que historicamente se recusou a associar sua imagem a empresas de apostas e redes de junk food na seleção francesa em respeito aos jovens e às crianças — jamais aceitaria ser instrumentalizado dessa forma, como os atletas do Flamengo tiveram que fazer usando um uniforme claramente defendendo a jogatina.
Mbappé simplesmente se recusaria a pisar no gramado vestindo uma camisa que faz apologia velada e lobby explícito em favor da jogatina.
O Flamengo pertence à sua torcida, não aos interesses corporativos de bilionários das apostas ou à arrogância de uma diretoria insensível às dores do seu próprio povo. Usar o manto sagrado para combater medidas protetivas de saúde pública e estabilidade social não é defesa de liberdade; é cumplicidade com a ruína de milhares de famílias.
O futebol não pode exigir que o atleta deixe seus valores no vestiário para satisfazer os interesses de dirigentes e patrocinadores.
O argumento de Bap é conhecido: o Flamengo estima perder centenas de milhões de reais com a medida. O impacto financeiro merece discussão, mas não encerra o debate.
Há receitas que um clube pode perder sem perder a dignidade. E há dinheiro que, por mais volumoso que seja, não deveria comprar o silêncio diante do sofrimento social.
A camisa do Flamengo já vestiu Zico, encantou gerações e se tornou paixão popular. Não merece ser reduzida a um outdoor contra medidas de proteção social.
Porque, no fim das contas, a pergunta não é quanto vale o patrocínio de uma bet. É quanto vale a consciência de uma instituição que tem milhões de torcedores entre as pessoas que mais precisam ser protegidas.
E essa conta, senhor Bap, não se resolve com uma planilha financeira. Resolve-se com responsabilidade social.


