Hiroshi Bogéa  –   O primeiro turno de 2026 deixou uma coisa cristalina: o Brasil resolveu brincar novamente com fogo.

E, como costuma acontecer por estas bandas, tem gente achando que incêndio é apenas fogueira de São João.

Não é.

A eleição produziu um Congresso Nacional fortemente deslocado para a extrema direita e ampliou o espaço das forças identificadas com o bolsonarismo. O PL saiu das urnas como a maior bancada da Câmara, com 121 deputados eleitos, além de 19 das 54 cadeiras do Senado em disputa.

Não é detalhe.

É poder.

É maioria suficiente para fazer barulho. Para travar. Para negociar. Para pressionar. Para mudar leis. Para tentar mudar a própria lógica de funcionamento do Estado.

E aqui começa a conversa que precisa ser feita sem paixão de torcida organizada.

Democracia não é somente escolher quem manda.

É escolher e, depois, garantir que quem ganhou não possa fazer tudo o que quiser.

Parece óbvio.

Mas, pelo andar da carruagem, o óbvio anda precisando de advogado.

O Brasil já experimentou a fórmula do conflito permanente entre governo e instituições. Já viu presidente atacando urna eletrônica. Já viu ministros do Supremo transformados em inimigos políticos. Já viu questionamentos contra o resultado eleitoral. Já viu uma multidão invadir os prédios dos Três Poderes.

Não faz tanto tempo assim.

A memória nacional, entretanto, costuma ser curta.

Aqui, às vezes, quatro anos são suficientes para transformar um problema sério em saudade de uma aventura.

Agora, o sobrenome Bolsonaro volta ao centro da disputa presidencial.

Flávio Bolsonaro está no segundo turno contra Lula.

E essa circunstância, somada à composição do novo Congresso, cria uma situação que merece ser examinada com muito cuidado.

Não porque a direita tenha vencido parte da eleição.

Isso faz parte da democracia.

Não porque o eleitor tenha escolhido candidatos conservadores.

Também faz parte.

O problema começa quando uma maioria eleitoral passa a acreditar que maioria eleitoral significa licença para atropelar instituições.

A democracia não funciona assim.

Nem em Brasília.

Nem em Belém.

Nem no meio da floresta, onde até boto sabe que quem entra no igarapé precisa respeitar a correnteza.

Uma democracia saudável suporta governo de esquerda, de direita, conservador, progressista, liberal, socialista.

O que ela não suporta por muito tempo é a ideia de que um grupo político, por ter vencido uma eleição, recebeu procuração para desmontar os mecanismos que permitem a alternância de poder.

Esse é o ponto.

O perigo de uma aventura institucional não chega necessariamente de farda, tanque e golpe clássico.

Às vezes chega de terno.

Passa pelo plenário.

Vira projeto de lei.

Recebe voto.

Ganha aplauso nas redes sociais.

E, quando alguém percebe, aquilo que parecia apenas uma disputa política virou corrosão institucional.

É assim que democracias podem começar a adoecer.

Devagar. Por dentro. Sem sirene. Sem aviso.

O Brasil está diante de uma escolha que ultrapassa Lula e Flávio Bolsonaro.

Está escolhendo também qual relação pretende manter com suas instituições.

O eleitor pode mudar o governo.

Pode mudar o Congresso.

Pode mudar os rumos econômicos, sociais e políticos do país.

Mas há uma coisa que não deveria estar em disputa: a democracia precisa continuar sendo maior do que qualquer presidente, qualquer partido, qualquer família política e qualquer maioria circunstancial.

Porque governo passa. Congresso muda. Presidente vai embora. Partido perde eleição.

Mas as instituições ficam.

E quando uma sociedade começa a achar normal colocar as instituições em segundo plano porque o político de sua preferência está no comando, o problema já deixou de ser partidário.

Virou problema nacional.

É aí que mora o perigo.

E talvez esteja na hora de o Brasil parar de achar que toda aventura política termina bem porque, até aqui, sempre apareceu alguém para apagar o incêndio.

País sério não brinca com democracia como quem acende fósforo no quintal depois da chuva. Uma hora a mata pega fogo. E, quando pega, não adianta reclamar do vento.