Tem jornalista que, dependendo da cotação, parece disposto a vender até a própria sombra.
Eu continuo acreditando numa coisa meio fora de moda chamada coerência.
É uma mania antiga. Incômoda. Dá prejuízo. Mas ainda funciona.
Nunca escondi de ninguém minhas convicções. Aquilo que defendo está exposto. Aquilo que critico também. Meu leitor não precisa contratar detetive para descobrir de onde estou falando.
E isso, no jornalismo de hoje, parece quase uma extravagância.
Vivemos a era do influencer.
O sujeito acorda, abre o celular, olha o patrocinador, consulta o contrato e, dependendo do produto, talvez descubra qual opinião terá naquele dia.
Eu não aprendi jornalismo assim.
Nas brigas mais duras que travei com a Vale, por exemplo, defendi que ela investisse em políticas sociais mais efetivas para as populações atingidas pelos grandes projetos de mineração no Sudeste do Pará.
Fui crítico da empresa.
E não foi crítica de nota de rodapé.
Foi crítica mesmo.
Na época do governo Ana Júlia, quando a sociedade paraense pressionava a Vale para viabilizar uma siderúrgica capaz de verticalizar parte da riqueza mineral retirada de Carajás e Canaã dos Carajás, eu estava no meio da discussão.
Aí apareceu uma proposta de publicidade da Vale.
Dinheiro graúdo.
Daquele tipo que compra carro, paga algumas contas e ainda deixa uma sobra honesta para tomar cerveja sem olhar o preço da garrafa.
Recusei.
Porque imagine a cena:
O sujeito passa o dia criticando a Vale.
À noite, publica no blog uma bela matéria defendendo a sociedade paraense.
E, no meio da página, lá está a logomarca da Vale, sorrindo para o leitor.
Que moral eu teria para continuar escrevendo?
Eu poderia até ganhar dinheiro.
Mas perderia algo muito mais caro: a cara.
Depois veio o governo Bolsonaro.
Uma agência que atendia o Ministério do Turismo mandou solicitação para proposta de publicidade.
Nem respondi.
Deletei o e-mail.
Não fiz manifesto.
Não convoquei coletiva.
Não precisei anunciar minha virtude nas redes sociais.
Apenas deletei.
Porque, às vezes, ética é justamente aquilo que você faz quando ninguém está olhando.
Mais recentemente, veio a febre das bets.
Enquanto eu defendia publicamente a necessidade de enfrentar a indústria das apostas, chegou proposta para colocar publicidade de uma empresa de jogatina no meu blog.
A agência era conhecida.
A conversa poderia ter sido simpática.
O dinheiro poderia ter sido conveniente.
Mas eu não iria transformar meu veículo em outdoor de uma atividade contra a qual vinha escrevendo.
Recusei.
Simples assim.
Não porque eu seja dono da verdade.
Mas porque seria intelectualmente desonesto defender uma coisa no editorial e vender exatamente o contrário na publicidade.
Meu blog não tem duas bocas.
Uma para o leitor e outra para o anunciante.
Agora chegamos ao ponto que me deixa particularmente desconfortável.
Tenho enorme respeito pela história profissional de vários colegas do jornalismo esportivo nacional. Alguns construíram carreira com competência, audiência e credibilidade.
Por isso, quando determinados profissionais passam a fazer críticas ferozes às medidas contra as bets, uma pergunta simples precisa ser feita — e não é crime perguntar: há relação comercial entre esses comunicadores e empresas do setor?
Se houver, que se informe.
Transparência não mata ninguém.
Pelo contrário.
Protege o próprio jornalista.
Porque uma coisa é você ser contrário a uma política pública. Outra coisa é o leitor descobrir que o crítico recebe dinheiro justamente de empresas diretamente interessadas na discussão.
Aí entra o velho conflito de interesses.
Não significa, automaticamente, que o jornalista esteja vendendo sua opinião. Mas significa que o público merece conhecer a relação comercial para formar seu próprio juízo.
É assim que deveria funcionar.
Transparência antes da gritaria.
O problema é que vivemos uma época em que alguns parecem acreditar que basta colocar a palavra “jornalista” na bio para qualquer opinião ganhar certificado de independência.
Não ganha.
Independência não está na bio.
Está nas escolhas.
Inclusive nas escolhas que fazem doer o bolso.
Eu já recusei dinheiro que faria diferença.
Não virei santo por isso. Também não quero canonização.
Só não quero chegar diante dos meus leitores carregando uma bandeira de coerência numa mão e um contrato publicitário incompatível com aquilo que escrevo na outra.
Seria ridículo.
E eu ainda tenho vergonha do ridículo.
O mais curioso é que, no Brasil, preservar princípios às vezes parece comportamento de maluco.
Você recusa dinheiro e alguém pergunta: “Mas por quê?”
Ora, porque não quero vender aquilo que me levou décadas para construir.
Credibilidade não é mídia programática. Não tem banner. Não tem CPM. Não tem tabela comercial.
E não deveria entrar em negociação numa sala de agência.
Pode parecer ingenuidade. Pode parecer burrice empresarial.Pode parecer até loucura.
Tudo bem.
Já chamaram jornalista de coisa pior.
Mas prefiro a fama de teimoso à condição de comentarista com preço de tabela.
Porque dinheiro acaba. Contrato termina. Patrocinador muda de lado. Empresa troca de agência. A campanha sai do ar. E o leitor continua ali. Esperando você escrever amanhã.
É aí que a conta chega.
Não na agência. Não no departamento comercial.
Na consciência.
E essa conta, meus amigos, não aceita PIX. No máximo, cobra vergonha na cara. E essa ainda não está à venda. Nem em promoção.


