Hiroshi Bogéa – O jornalismo brasileiro amanheceu mais pobre nesta terça-feira, 22. Morreu, aos 95 anos, Zuenir Ventura, jornalista, escritor, cronista, repórter e integrante da Academia Brasileira de Letras. Zuenir morreu em casa, no Rio de Janeiro, em decorrência de uma pneumonia.
Autor de livros fundamentais para compreender o Brasil contemporâneo, como *1968 — O Ano que Não Terminou* e *Cidade Partida*, Zuenir pertenceu a uma geração de jornalistas que não se contentava apenas em contar o que havia acontecido. Era preciso compreender o acontecimento, investigar suas causas, ouvir seus personagens e transformá-lo numa narrativa capaz de sobreviver ao dia seguinte.
Eu já era admirador de Zuenir quando tive a felicidade de conhecê-lo pessoalmente.
Estava em São Paulo numa viagem profissional, tratando de negociações junto à então recém-implantada MTV Brasil, emissora dedicada aos videoclipes musicais, quando soube que Zuenir seria o protagonista de uma palestra-debate no Sesc-SP.
Não pensei duas vezes.
Estiquei as pernas até o Sesc.
Zuenir era, para mim, uma espécie de guru do jornalismo e da crônica. Um daqueles profissionais que a gente lê não apenas para saber o que ele está contando, mas também para aprender como se conta uma história.

Foi uma tarde inesquecível.
Zuenir falou sobre *1968 — O Ano que Não Terminou*, obra que se tornaria um clássico da não ficção brasileira. Falou do regime militar, dos acontecimentos que antecederam o AI-5, da resistência cultural e do papel da imprensa num país submetido à repressão política. O livro, lançado no final dos anos 1980, atravessaria gerações e se tornaria uma das obras de referência sobre aquele período da história brasileira.
De lambuja, como se aquela tarde já não tivesse nos oferecido material suficiente para meses de reflexão, Zuenir entrou em outro assunto que naquele período ainda queimava na consciência do país: a chacina de Vigário Geral.
Falou de sua experiência na comunidade, onde mergulhou durante meses para compreender a violência, a desigualdade e a existência de dois mundos separados por poucos quilômetros dentro do mesmo Rio de Janeiro. Dessa experiência nasceu *Cidade Partida*, livro-reportagem publicado em 1994 e posteriormente vencedor do Prêmio Jabuti de Reportagem.
Quando o encontro foi aberto às perguntas e aos depoimentos da plateia, resolvi contar uma história minha.
Relatei que, durante a ditadura militar, havia sido preso pelo Exército em Imperatriz, acusado de “subversão”.
Meu perigoso ato contra a segurança nacional?
Um poema.
Chamava-se “Mana Fuínha”.

Eu o havia publicado no jornal *O Progresso*, de Imperatriz, e escrito para Sonia, minha namorada naquele tempo, que depois viria a ser minha esposa e mãe de meus três primeiros filhos.
Zuenir ouviu atentamente.
E explorou aquele testemunho para mostrar até onde podia chegar um regime de exceção. Observou que a ditadura não permanecia restrita aos gabinetes do poder, aos quartéis ou aos embates políticos. Ela entrava na vida privada das pessoas. Interferia na cultura, nos afetos, nas palavras, nos jornais, nos poemas e até numa declaração de amor.
Um poema para uma namorada podia virar caso de polícia.
E o poeta, “subversivo”.
Terminada a palestra, fui para a cafeteria do Sesc. Sentei-me a uma mesa com um jovem jornalista do Espírito Santo que havia conhecido ali. Conversávamos sobre tudo o que tínhamos acabado de ouvir quando, de repente, chegou Zuenir.
Pediu licença.
Sentou-se conosco.
E ficou jogando conversa fora.
Era o grande Zuenir Ventura, mas não havia qualquer solenidade nele. Nenhuma distância entre o escritor consagrado e dois jornalistas sentados numa cafeteria. Havia curiosidade, conversa, troca de experiências — aquilo que talvez seja uma das matérias-primas essenciais do jornalismo.

Em determinado momento, dirigindo-se a mim, soltou uma frase que nunca mais esqueci:
“Jornalismo e literatura são irmãos gêmeos que nasceram muito diferentes e que hoje são mais parecidos do que nunca.”
Guardei aquilo.
E continuo guardando.
A frase acabou se transformando numa espécie de orientação psicológica e profissional que carrego comigo até hoje. Sempre que escrevo, tento aproximar duas coisas que Zuenir dominava como poucos: a apuração rigorosa dos fatos e a qualidade estética da narrativa.
Porque um texto jornalístico pode ser preciso sem ser burocrático.
Pode informar sem ser árido.
Pode investigar sem abandonar a sensibilidade.
E pode contar a realidade com a força narrativa da literatura sem jamais violentar os fatos.
Zuenir fez isso durante uma vida inteira.
Passou por algumas das principais redações brasileiras, cobriu momentos decisivos da história recente do país e transformou grandes reportagens em livros. A série sobre o assassinato de Chico Mendes lhe rendeu, entre outras distinções, os prêmios Esso e Vladimir Herzog. Em 2015, tomou posse na Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 32, na sucessão de Ariano Suassuna.
Mas, para mim, nenhuma biografia oficial consegue substituir aquela imagem: Zuenir sentado numa mesa de cafeteria do Sesc, sem cerimônia, conversando com dois jornalistas.
E aquela frase, décadas depois, continuo ouvindo-a.
Talvez porque alguns mestres tenham essa capacidade: dizem uma coisa aparentemente simples numa tarde qualquer e deixam dentro da gente uma espécie de bússola.
Nesta terça-feira, Zuenir Ventura morreu aos 95 anos.
Ficam seus livros. Ficam suas reportagens. Ficam suas crônicas. Fica sua maneira de olhar para o Brasil sem perder a humanidade diante dos personagens que encontrou pelo caminho.
E fica, para mim, aquela tarde no Sesc. A mesa. A conversa. E a lição.
O Brasil fica menos inteligente com a morte de Zuenir Ventura. E o jornalismo brasileiro perde um daqueles mestres que nos ensinaram que contar bem uma história nunca significou enfeitá-la — significou compreendê-la profundamente para contá-la melhor. (Fotos: Reprodução)


